20/03/2009

A Senda Odinista

em Espiritualidade

A Senda Odinista – Conhecendo o odinismo, compreendendo seus mistérios e adentrando a Velha Religião

     

   

O artigo Senda Odinista deseja desvendar as dúvidas corriqueiras sobre o caminho odinista e qual a maneira mais adequada para o ser de percorrê-lo. Iniciaremos explicando o que é o odinismo e como ele funcioando, passando para a compreensão da religiosidade que ele prega e qual a espiritualidade que se irá seguir, e então mostraremos como se dá a introdução de um indivíduo do seio da Velha Religião. O artigo foi dividido em quatro partes.

   

1) Introdução ao Odinismo

 

   

Ao longo dos anos, desenvolvi um profundo interesse em colaborar com os rumos do Odinismo aqui no Brasil, cujas informações são vagas e imprecisas. Com o crescimento gradual das atuais formas de paganismo, o odinismo veio a calhar e se destacar dentro da gama de segmentos de paganismo nórdico que surgem na atualidade.

  

A espiritualidade odinista fornece subsídios atuais para todas as necessidades que assolam a alma do homem, desde os tempos da antiguidade. É uma religião completa em si mesma. Divinação, pós-morte, justiça, natureza, mitos, realidade, história, ciência, sexualidade, destino, glória, felicidade, sofrimento, etc. A religiosidade nórdica pode ressarcir nossas fontes de busca de forma tão prazerosa e suficiente quanto qualquer outra secção de paganismo, ou mesmo religião.

  

Talvez o que acontece atualmente no cenário pagão americano seja a falta de comprometimento de cada um com a causa e por isto haja falta de informação substancial. Na Europa, muitas vezes o movimento pagão, “heathenist”, está intimamente ligado ao sentimento de nacionalismo, patriotismo, regionalismo, etnicidade e cultura de um determinado povo. Esta identificação primária é de suma carência para que o indivíduo sinta a necessidade de buscar a religiosidade que melhor se aplica a eles mesmos. A ausência de um ou mais destes sentimentos é a causa principal da nostalgia religiosa que acontece no atual paganismo americano. É esta nostalgia religiosa que impede a entrega total de uma pessoa aos seus anseios espirituais pagãos.

  

O resgate destes sentimentos precisa ser batalhado por todos aqueles que se empenharam em fazer do paganismo nórdico uma forma de espiritualidade atual. Se pensarmos sob ótica de que os povos germânicos desde a Idade Antiga e até a Idade Média tiveram colônias desde a toda a Europa, pela Ásia, África e América, então podemos deduzir que seus deuses viajaram consigo para todo o mundo. Os vikings acreditavam piamente que seus espíritos e deuses natais viajavam junto com eles em suas expedições e quando havia a colonização de uma determinada região, estes seres mágicos também participavam das batalhas contra os espíritos e deuses da própria região, por espaço e culto. E, assim, os deuses expandiam suas regiões de culto e grandeza, habitando rincões inimagináveis. Os germânicos mesclaram sua etnia com muitos povos do mundo inteiro. Dessa forma se torna impossível falarmos sobre descendência e religião, mesmo porque etnia acaba por significar pouca coisa diante de tantas outras preocupações e informações que nos cercam.

 

No tocante à espiritualidade pagã o que se é desejado é que a pessoa seja de virtude e comprometimento. Coisa alguma de etnia, descendência, nacionalidade ou qualquer outro quesito biológico para a prática religiosa importa. Nada disso vale algo. Pode até falar sobre a ancestralidade de uma determinada pessoa, mas felizmente (e para muitas pessoas isso é motivo de comemoração) nada disto irá contribuir com sua responsabilidade religiosa dentro do culto. Como houve miscigenação étnica entre os germânicos e outros povos, ao largo de longínquas regiões do mundo, afirmar que o sangue antigo corre aqui ou ali é mera suposição pessoal. Somente um pesquisador de antropologia especializado em etnia daquele povo poderia dizer com alguma exatidão o quão perto da ancestralidade germânica um povo poderia estar ou não. Ninguém mais poderia dizer algo sobre isso e qualquer afirmação deste cunho seria algo meramente pessoal ou vaga. Os próprios germânicos se voltaram contra sua própria fé e adotaram uma religiosidade cristã, o que, portanto, pode nos dizer que talvez nem eles mesmos seriam verdadeiros merecedores de sua própria fé.

  

Ninguém melhor para merecer a religiosidade odinista do que aquele que vive com virtude e se compromete com os valores do paganismo nórdico.

  

Para um praticante de virtude da Velha Fé, haverá questões inexoráveis e anseios comuns a todos os seres, que obviamente exigem de sua espiritualidade uma resposta.

 

O principal anseio do ser humano é a felicidade. Mas não aquela sensação de alegria que emerge então, quando após um ato gostoso, nos deixando saudosos da vida. A felicidade é a paz interior. A complacência com o mundo. E o odinismo oferece isso para aqueles que buscam sua verdadeira espiritualidade. A felicidade advém de uma visão da realidade da qual conseguimos compreender o mundo com benevolência e aceitar a paz consigo mesmo.

  

Outrora nossos ancestrais germânicos acreditavam que para a boa vivência do homem era essencial ele possuir Frith em sua vida. E Frith realmente é algo de necessidade para o viver. No âmago etimológico da palavra encontramos seu significado na “paz”. E novamente não podemos interpretar a palavra em sua literalidade, pois não é a paz que é conquista na guerra. É a paz que temos com o mundo, é a harmonia. A paz entre vizinhos, a paz dentro do lar, a paz entre os enamorados, a paz no ambiente trabalho, a paz em todo tipo convivência, assim é a paz que o paganismo prega. Este é o verdadeiro Frith, o real anseio do homem. Acima de qualquer outra coisa o ser humano busca do Frith. O corpo e o mundo fora formado de tal maneira que o ser possa buscar e conquistar Frith.

   

Nem de longe podemos pensar que o Frith é algo utópico, como um “nirvana”, pois a paz é conquistada gradualmente e com simplicidade. É através da ação com virtudes e de um pensamento positivo em relação ao mundo que podemos alcançar rapidamente o Frith. O Frith é palpável.

  

No paganismo nórdico tradicional existem três formas básicas de se conquistar o Frith através das pessoas: proporcionar paz nas relações entre a família, entre duas pessoas com um selo de lealdade entre si e entre seus deuses e si mesmo.

 

Através da família ocorre a principal fonte de paz. É preciso seguir as virtudes a risca com todos os membros da família, do clã, do kindred, pois eles são o lar, nossa acalento familiar e o âmago de nosso nascimento e morte. Obviamente manter uma relação saudável entre duas pessoas é essencial, seja um mestre e um discípulo, um senhor e seu vassalo ou mesmo os enamorados e amigos. Juntamente com isto não pode se ausentar a relação entre um homem e sua fé, pois ao mesmo tempo que a pessoa alimenta sua egrégora, louva e respeita seus deuses, espíritos e ancestrais, o inverso oferece conforto espiritual, respostas para questionamentos milenares, paz espiritual, orientação e um lar de descanso e alegria após a morte.

 

Mas, para adentrar ao mundo religioso odinista é preciso comprometimento. Lealdade seria a palavra correta dentre as virtudes. E egocentrismo precisa deixar-se de lado e as pessoas terão que despir de suas vestimentas sociais para poderem aceitar uma nova realidade de mundo completamente diferente daquela que o mundo ocidental monoteísta ensinou durante séculos de ignorância e intolerância.

 

Tolerar o próximo pode ser difícil aos primeiros passos, mas então isto se torna hábito quando percebemos que aliar virtudes como hospitalidade e benevolência. Ninguém é perfeito e precisamos ser complacentes e tolerantes o tempo para podermos viver bem e sermos felizes.

  

A idéia de perfeição cristã é utópica e irreal. Ela está bem longe da realidade pagã. Para o paganismo nórdico a perfeição é simples: é perfeito aquilo que é capaz de cumprir sua própria sentença para qual fora designado com desenvoltura e simplicidade. Portanto, a natureza é perfeita, o homem é perfeito e isto tudo simplesmente porque somos capazes de cumprir aquilo a qual estamos sentenciados a viver, que é simplesmente gozar a vida em nossas funções e responsabilidade. Através das Eddas sabemos que o mundo fora criado através de outras coisas em uma constante transformação de atributos e adquirindo exatamente a forma que os Deuses Primários assim desejaram. Nem mais e nem menos. Nascemos exatamente da perfeita maneira que os deuses assim desejaram.

  

Por estes conceitos descartamos as idéias sincretistas, espíritas e esotéricas de “evolução espiritual”. Para o paganismo nórdico, “evolução espiritual” é uma tremenda bobagem, uma preocupação desnecessária. Com certeza, acreditar nisto seria negar os principais pilares do paganismo. Como poderíamos viver uma constante necessidade de evolução espiritual quando somos simplesmente à imagem de nossos deuses, somos a vontade dele expressas na realidade? Nos mitos vemos claramente os deuses satisfeitos com sua própria criação; e, quando algo os desagrada, eles interferem pessoalmente em nosso mundo de maneira que possam modelar sua vontade.

   

Evolução biológica é diferente da evolução espiritual e não podemos negar o fato da existência deste conceito científico. Como pagãos, sabemos que o nosso espírito não é uma lagarta que precisa virar borboleta. Nossos corpos físicos estão em constante transformação e adaptação diante das nossas necessidades existências. Isso é fato. O mundo é uma constante mudança e fluxo de coisas e evolução não é sinônimo de melhoria. Evolução é transformação. Por exemplo, a lagarta que sai do casulo, pode sair com uma nova deficiência genética que a torna mais fraca do que os outros de sua espécie e isto é também evolução, entretanto não conseguimos observar sua melhoria.

 

Associar a palavra evolução com melhoramento é um erro. Melhoramento é essencial a cada ser, para se poder viver e buscar isto incessantemente é parte natural da vida da qual não necessitamos nos preocupar. É implícito viver, ganhar experiência e usar isto para melhorar nossa própria vida. Ninguém precisa que se preocupar em ganhar mais experiência que outrem, ou pior ainda, desgastar o presente com preocupações tolas como descolar um lugarzinho mais aconchegante após a morte. Todos merecem descanso após a morte. A morte é o descanso de todos os corpos pútridos que jazem em seus sonos eternos liberando seus espíritos para a paz final.

  

E é por isto que o termo reencarnação também não é tomado como parte da gama religiosa do odinismo. Reencarnação é um conceito moderno, adotado pelo espiritismo, da qual se deita confortavelmente nas idéias de evolução espiritual que acabamos de narrar. Portanto, faz-se necessário esclarecer que inexiste uma aplicabilidade útil para a reencarnação dentro da nossa fé. Dentro dos nossos ditames o correto é a palavra renascimento.

    

Para compreender o que é renascimento é preciso adentrar os mistérios míticos que a natureza do mundo encerra. Os ciclos da natureza estão repletos de exemplos de nascimento, vida, morte e renascimento. E como tudo é transformação, não necessariamente renascimento venha a significar exatidão de forma. Isso quer dizer que nossos corpos podem degenerar com o tempo e dormir com a terra após a morte e que ele fará parte de outras formas de vida, se misturando com o mundo naturalmente, mas nossa alma imortal irá navegar entre os mundos buscando seu destino até que novamente possa voltar a caminhar entre os vivos. E a alma não poderá renascer em qualquer corpo. Ela irá buscar pela identificação. Os ancestrais são responsáveis por guiar o clã e receber novamente uma alma familiar dentro do seio de um lar. Somente iremos renascer onde corre o sangue antigo. A alma viaja através do sangue. A alma de um pigmeu dificilmente poderia renascer no corpo uma japonesa, ou no corpo de um picto. A ausência ou a distância de laços de sangue impedem a identificação da alma com seu novo corpo. É mais provável um avô renascer no corpo de um neto ou mesmo no em um novo corpo jovem de um parente mais distante, do que numa pessoa sem vínculo de sangue algum em razão a ele. É necessária a continuidade da vida: através da corrente de sangue é que são transmitidas todas as características vitais de uma pessoa.

  

Para o paganismo nórdico a crença de que todos os atributos ancestrais sejam transmitidos através do sangue é algo muito mais complexo do que a simplicidade da frase pode salientar. Talento, sortes, maldições, dotes, defeitos, merecimentos, honras, habilidades, espíritos guardiões, atributos físicos, força, virtudes, toda sorte de características são transmitidas pelo sangue através da ancestralidade. E é por estes motivos que só iremos renascer onde correr nosso sangue ou onde o sangue parente ainda corre. Talvez seja essa a fonte de que os pagãos modernos afirmem que nada mais são do que os seus próprios ancestrais renascidos.

 

Todos estes atributos herdados são conhecidos como “Orthanc”. “Orthanc” vêm do nórdico antigo e significa “herança”. E nada mais é do que a reunião de todos os orlogs seus e de seus ancestrais que a ti foram transmitidos durante o nascimento. Não existe conceito semelhante à orlog. Talvez seja uma característica típica e única dos povos germânicos. Orlog quer dizer “da lei”. Refere-se à lei natural de justiça, harmonia do universo. É a lei do retorno, que diz que toda ação possui uma reação proporcional. E Orlog vêm a ser o efeito desta lei, ele é a reação de um ato, de uma ação de qualquer tipo ou natureza. Tudo gera orlog, bons ou ruins. E são estes orlogs, que somanos, formam a base sólida de nossas sortes e maldições que o destino pode nos lançar.

  

  

2) O Destino do Ser

  

  

O destino é tudo. Entre os nórdicos conhecer o destino era uma façanha de grande poder e que algumas vezes assustava as pessoas. Poucos deuses eram dotados deste poder. Nas Eddas há a menção de que a deusa Frigg conhece todos os orlogs, mas se cala e os guarda para si. Ainda nesses mitos há referências de que as Norns são responsáveis pelo destino, e que são responsáveis por conhecer os orlogs de cada ser do universo. Mas, muitos seres estão envolvidos no processo de conhecer e transmitir orlogs. Desde as deusas fiandeiras e matreiras (Nornor, Dísir, Idísi) até seres mágicos como as Walkyrjor ou algumas gigantas em especial, como Hyndla a exemplo.

  

Quando um destino é delegado a uma pessoa, ela não poderá mais fugir dele, mesmo que por mais tortuoso que seja o caminho que resolva percorrer. Aquilo que os deuses ou nossos ancestrais nos deixaram é intransmissível e se quisermos alterar a carga de nosso destino será necessária mais do que um nascimento cheio de bons orlogs. Somente os virtuosos e grandes fazem seu próprio destino ou pelo menos conseguem engrandecê-lo. Não se pode fugir da direção óbvia que as leis naturais do universo apontam.

  

Não devemos jamais possuir a visão esotérica atual de destino. O destino para o paganismo nórdico é algo diferente. Não é uma linha traçada dizendo que deverá ser médico ou ter três filhos homens, etc. Não é um objeto fatalista e primitivo, sem alternativas de se traçar (mesmo que não haja fuga, há formas e formas de se viver) que afirma que teremos câncer em um estágio da vida ou que seremos um dia um grande governante. Nada disso. Este tipo de prisma sobre destino é diferente do que realmente era acreditado na antiguidade pelos povos germânicos.

  

As diferenças são furtivas, mas cruciais. É preciso atenção para compreender isto. Como eu havia afirmado acima, o destino é tudo. No mais amplo sentido da palavra, ele significa todas as possibilidades dentro do nosso alcance. É esse poder de alcance que envolve o destino. É nossa herança ancestral que determina como será nosso destino e nunca podemos fugir dele. Quando afirmamos que, através do Orthanc, nossos ancestrais guerreiros, por exemplo, legaram o talento para a vitória nas batalhas e a bravura em todos os atos, então é destino nosso herdar suas façanhas e virtudes, bem como gozar de suas glórias. Logo nosso destino é ter vitória em nossas batalhas como nossos ancestrais, assim como ter uma alma carregada de forte bravura. O mesmo acontece com toda sorte de características, atributos e marcas que herdamos e determinam nosso destino. E é por isso que o destino é gêmeo do passado.

  

Nos antigos idiomas nórdicos, algumas palavras especiais definem destino. São elas Fjör, Fjörd, Urd, Ur, Ör, Urdir, Wurd, Wyrd. Wyrd fora mais conhecido entre os povos anglos e saxões. Entre os vikings foi comum o uso da palavra Urd e Fjör (ou Fjörd) para a ocasião. Fjör, Orthanc e Orlog são termos inseparáveis dentro de um ser. Fjör é aquela linha escarlate e tênue que nos conecta a todos os seres do universo de uma forma ou outra e através desta linha de destino que recebemos todos os orlogs. As fiandeiras traçam o destino, distribuem justamente todos os orlogs através do Fjör. Somente uma coisa é certa e sabida sobre o destino de um homem e os povos nórdicos acreditavam seriamente neste ponto: o dia da morte de um homem é ditado por Skuld no instante em que espírito renasce nesse mundo. É a Norn Urd quem conhece o passado de todos os homens e assim conhece suas direções. É a Norn Verdandi que traça seus orlogs, quem movimenta o Fjör. Para a Norn e Walkyrjor Skuld é reservada a tarefa de conhecer os orlogs de cada um e cortar a linha Fjör, findar o destino de um ser, trazendo sua morte, carregando-o de volta para o âmago ancestral de cada ser.

  

Acima do destino existe a vontade do ser. E é a vontade do ser que determina como e quando o homem poderá cumprir seu destino. Somente através de uma vida virtuosa e repleta de benevolência poderemos arraigar bons orlogs em nosso ser e desta formar nos armar de proteção e felicidade, para então alcançar a paz que tanto almejamos desde o dia no nosso nascimento até o dia da nossa morte. O Frith, que é a aspiração mais desejada do que qualquer outra coisa, pode ser conquistado através de infindáveis meios, mas somente através dos desejos de paz e felicidade é que os caminhos da vida serão favoráveis e saborosos de se percorrer.

  

3) Os Mistérios Pagãos a Busca do Frith

  

  

Quando os deuses criaram nosso mundo, e criaram-nos sob seus desejos e semelhanças, fomos imediatamente dotados de atributos completos para o gozo da vida. O gozo da vida é um anseio latente ao ser e que precisa ser consumado avidamente para conquistar o prazer. Mas, o prazer é apenas a sensação de conquista e júbilo sobre alguma coisa que foi desejada primeiramente. E quando este primeiro prazer for saciado, outro em breve virá, num interminável círculo vicioso que pode acabar prejudicando o ser em sua visão de realidade e atrapalhando na sua busca pelo verdadeiro Frith.

  

Como nos ensina o Hávamál é precisa prudência e moderação em todos os sentidos da vida. Quem mede suas próprias palavras pode se passar por sábio, mas ser harmonioso ou calmo diante de uma determinada situação é algo realmente de grande honra e bravura para uma pessoa.

 

Na busca da felicidade e da paz é preciso virtudes. Toda ação têm sua reação e o destino é tudo. A benevolência é a essência das grandes conquistas. O ócio só faz mal a mente e o desocupado fica pensando em coisas que não deveria. A laboriosidade enobrece a alma do homem e dobra seu ego diante da profundidade do ser. É preciso ser veloz e eficiente em nossas ações e não podemos nos deixar distrair pelas coisas inúteis, coisas estas que em nada poderiam acrescentar em nossa vida, que de determinada forma não aumentariam nossa verdadeira felicidade ou engrandecimento como pessoa.

  

Os mistérios do paganismo ensinam segredos com que podemos aprender aqui no microcosmo para validar no macrocosmo. O maior destes mistérios é a vida e a morte. E sua revelação é óbvia e simples, apenas difícil de se fazer compreender. Tudo é cíclico e mundo vive em constante transformação. Tudo que nasce, cresce, depois morre, se transforma e renasce de alguma forma. Uma coisa leva a outra. A ação de viver se conecta na reação de morrer. E a reação de morrer é similar à transformação seguinte. A ação de morrer leva à conseqüência do renascer.

  

Benevolência é retribuída com ela mesma. Uma coisa boa leva a outra e uma falta é seguida de outra. Agir com virtude é um ato muito nobre e sua glória está na própria ação, pois virtude é recompensada com virtude, assim como a punição do mau hábito é próprio vício nesse.

  

Ainda nos mistérios do paganismo aprendemos a compreender que não existem castigos e nem recompensas na natureza, apenas existem reações, conseqüências naturais, orlogs. Tudo têm um preço e seu pagamento é inevitável, pois a natureza não dá crédito. A lei natural é implacável e infalível. E por isso que a experiência precisa estar a favor da ação do homem, uma vez que uma ação precipitada e injusta certamente não terá um final feliz.

  

Observe quando jogamos algo para o alto. Aquilo não pára lá em cima, pois desce de volta para a terra, na reação de devolução. Neste ponto, podemos aprender que além das reações naturais que o destino convoca, sabemos que nós mesmos estamos sujeitos às reações dos nossos anseios, pois tudo voltará a nós mesmos sob alguma forma conforme for a tendência de nosso intento.

  

Todos os nossos atos tornam-se aquilo que somos e tornam-se os nossos destinos, assim é a lei. A alma é imortal e preocupar-se com isto é algo desnecessário. Entretanto, preparar nossos terrenos vindouros e construir bases sólidas para se viver é algo crucial, pois todo o momento possui a sua repercussão na eternidade, assim como o bem que se faz na véspera deverá germinar e quando se tornar maduro será a alegria do dia seguinte.

  

Ainda é preciso compreender que a justiça natural dos deuses e da natureza não pode encarar somente a sua visão pessoal de bem e mal, pois esse maniqueísmo não existe. Nada é tão bom e nada é tão mal, pois existe um equilíbrio perene entre todas as coisas por todos os mundos. O que existe é a inocência e a virtude, o desconhecimento e a sabedoria, a raiva latente e a tolerância, a ignorância e a ansiedade. E é nestas pequenas diferenças que habita o verdadeiro significado da compreensão da realidade por trás do mundo. Nem o próprio deus Odin é tão bondoso que não seja capaz de um ato maldoso, assim como Loki também foi capaz de usar de sua benevolência muitas das vezes que se fez necessário.

  

Falar da inexistência do maniqueísmo dentro do paganismo nórdico é super interessante porque isto deverá quebrar a barreira judaico-cristã que foi construída no ocidente e que permanece oferecendo ignorância e intolerância para o mundo. As coisas são como devem ser e só existe a inocência e a ignorância diante da sabedoria e da virtude.

  

  

4) Adentrando o Caminho Odinista

  

  

Ser odinista é caminhar dentro da religiosidade do paganismo nórdico e estar disposto à aceitar uma causa reconstrucionista, que por si só é inseparável do conceito da nossa religião. Transformar a si mesmo em odinista é um processo lento e pode ser cheio de empecilhos.

  

A maior dificuldade do odinista hoje é a falta de informação. A falta de fontes de referência para estudos, ou de pessoas qualificadas e experientes, para desenvolver a espiritualidade, no seio de famílias e grupos, é algo que atormenta o cenário sul-americano moderno.

  

É preciso o uso das virtudes a favor da determinação na busca desta religiosidade para si. O odinismo é um credo que foi feito para pessoas que buscam um caminho alternativo, diferente daqueles que as atuais religiões monoteístas pregam. Uma religião para pessoas com disposição e talento. Disposição para pesquisar com interesse e  curiosidade latente em conhecer o universo pagão nórdico são coisas essenciais à espiritualidade paganista moderna. Ter algum talento para a prática de pesquisar, formular idéias, críticas e colaborar de alguma forma com a passagem de informação no nosso meio pagão ou com o reconstrucionismo é também algo essencial.

  

É claro que a religião não foi feita somente para pesquisadores, historiadores, arqueólogos, paleógrafos, etc. Mas, também não foi feita somente para religiosos. E com certeza não foi feita para fundamentalistas ou para pessoas vazias. A religião odinista deve ser composta por pessoas interessadas em viver a religiosidade pagã nórdica, assim como também sejam habilidosas de alguma forma à articular nossos veículos de informação.

  

A senda odinista é um sucesso tanto para famílias e grupos, quanto para a espiritualidade individual. A vivência fraterna dentro de um clã é essencial para experimentar as virtudes da família e enriquecer-nos de fontes primárias de Frith. Mas é também na interiorização e na transformação do ser que acontece a jornada espiritual individual de cada um. Portanto, tanto uma como outra forma de prática é válida, desde que ambas enquadram-se nos valores espirituais da religião ou se colaboram de alguma forma com as causas odinistas.

 

Aceitar a fé de primeiro momento pode parecer fácil, pois não há uma doutrina que estabeleça as regras de aprendizado ou passagem gradual em sabedoria dentro do credo. A solenidade é mínima.

  

O odinismo não é uma religião iniciática. Não existe iniciação. Os povos nórdicos não tinham costumes iniciáticos em sua religião, pois não viam diferença entre o laico e o sagrado desde o dia de seus nascimentos até o dia de suas mortes. Tudo era sagrado e a vida estava inevitavelmente no meio disto; e tomar a vida como algo mágico era natural e simples aos olhos de qualquer pagão. Não eram necessárias apresentações formais para adentrar o universo ritualístico, nem eram necessárias encenações de passagens míticas para iniciar uma fase nova na vida mágica ou religiosa.

 

Qualquer um poderia ser sacerdote ou fazer magia, pois o conhecimento era algo comum, repassado dentro das famílias para os mais novos como parte do aprendizado e lições sobre a vida humana.

  

A função de sacerdócio era responsabilidade do chefe da família ou do mais experiente dentro de um determinado grupo. E a magia era algo natural associado às mulheres de toda forma. Homens também faziam magia, mas era algo mais sutil e marcial. Para usar da religiosidade nórdica na prática fazia-se necessário apenas o conhecimento do culto e a boa fé.

  

No Odinismo moderno a entrada para a religião pode ser marcada pela afirmação pessoal do ser diante do reconhecimento da adoção total da espiritualidade odinista, bem como diante da adoção de virtudes na vivência cotidiana.

  

Em um grupo, família ou clã, o procedimento pode ser mais formal. Um juramento de lealdade é solicitado pelo grupo ao novo postulante. Este juramento, conhecido como Eidr, é o marco da passagem de uma pessoa para dentro de uma irmandade odinista. Nem de longe se compara a alguma iniciação, pois o juramento só possui validade diante de um grupo odinista, uma vez que o juramento é sobre uma questão de lealdade às pessoas que ali estão presentes e sobre votos pessoais que o postulante procurará seguir em sua jornada junto de seus novos irmãos. O praticante solitário não tem necessidade alguma deste tipo de formalidade ou passagem. Exatamente por estas questões aqui explicadas é que não existe qualquer tipo de auto-iniciação ou coisa do tipo.

     

Mas o caminho pagão não é feito somente dos estudos e práticas ritualísticas. O conhecimento prévio da religiosidade é essencial para dar os primeiros passos dentro do Odinismo. Portanto, quem busca iniciar e percorrer na antiga senda, por favor, leia, pesquise e busque sempre por conhecimento. A ritualística é somente a forma simbólica com que expressamos nossos sentimentos de honrar as práticas de nossos ancestrais e celebrar os momentos marcantes do ano, junto com nossos irmãos e irmãs à moda tradicional do paganismo nórdico. Além destas duas premissas (conhecimento e prática), está uma espiritualidade a se viver, o que é essencial.

 

A espiritualidade é muito complexa e para tal precisamos de outros estudos e textos que mais para frente estarão disponíveis em isolados.

  

Não somente de conhecimento de teologia odinista se faz o iniciante da senda, mas também de seu interesse pela busca. Aprender odinismo não é algo que seja feito com uma “grade universitária”. Sim, é um processo gradual de etapas interativas que pode ser estudado academicamente, mas só poderá ser compreendido se vivenciado com plenitude em todo o tempo.

  

 

Vagner – 14 de agosto de 2007

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Cadu Garcia