20/03/2009

Hárbardsjod

em Mitologia

Hárbardsjod

  

O Discurso de Hárbard

 

 

Thor voltava do leste, quando se deparou frente a um canal. Do outro lado do canal estava o barqueiro e sua barca. Thor falou:

 

“Quem é o moço entre os moços na outra orla do canal?”

 

Respondeu:

 

“Quem é o homem entre os homens que me fala sobre as ondas?”

 

Thor falou:

 

“Cruza-me o canal, dar-lhe-ei um bom desjejum,

carrego em minha cesta, pelas costas, o melhor dos almoços;

Comi em minha casa, antes de marchar,

Carne de boi e de cabra, e ainda estou satisfeito.”

 

O barqueiro falou:

 

“Qual proeza adiantou-lhe tua comida elogiada;

E és pouco adiantado:

Triste está tua família, creio que tua mãe morreu.”

 

Thor falou:

 

“Falastes agora o que de tudo parece

ser o mais grave: que minha mãe está morta!”

 

O barqueiro falou:

 

“Claro, pois já vejo que necessitas três bens:

levas as pernas nuas, roupas de maltrapilhos,

nem calças parece que tinhas!”

 

Thor falou:

 

“Traz aqui teu barco! Te direi onde atracar.

Mas, de quem é a barca que tens ai na terra?”

 

O barqueiro falo:

 

“Hildúlf se chama quem me mandou vigiar,

o sagaz guerreiro que habita o Rádseysund;

Disse-me que não deverão passar assaltantes nem maltrapilhos,

Só aos bons e aos que conheça bem.

Pois me diz teu nome se queres passar o canal.”

 

Thor falou:

 

“Sim, e direi-lhe meu nome, embora me afronte,

e a toda a minha família: sou o filho de Odin,

irmão de Meili e pai de Mágni,

rei poderoso dos deuses: com Thor estás falando.

E agora eu que quero saber como te chamas!”

 

O barqueiro falou:

 

“Me chamo Hárbard, e não oculto meu nome.”

 

Thor falou:

 

“Porque ocultar seu nome se não fizestes nada de mal?”

 

Hárbard falou:

 

“Aqui eu continuo, aqui te espero,

não encontrarás ninguém mais forte desde a morte de Hrungnir.”

 

Thor falou:

 

“Queres lembrar-me minha luta com Hrungnir,

O gigante arrogante da cabeça de pedra?

Pois o derrubei e lhe tirei a vida.

Entretanto, que tu fazias, Hárbard?”

 

Hárbard falou:

 

“Estive com Fjölvar durante cinco invernos,

na ilha que chama de Allgraen;

Ali tivemos combates, e abatemos homens,

Muito ousamos, e ao amor degustamos.”

 

Thor falou:

 

“Como os trataram vossas mulheres?”

 

Hárbard falou:

 

“Seriam mulheres vivazes se tivesse sido dóceis,

Seriam mulheres sábias se tivessem sido fiéis;

Trançaram cabos com areia,

E de vales profundos

Escavaram prados.

Só o meu juízo foi melhor que o delas,

Conquistei sete irmãs,

E tive amor e prazer com todas.

Entretanto que tu fazias, Thor?”

 

Thor falou:

 

“Eu matei Thjálfi, o gigante algoz,

e lancei os olhos do filho de Allvaldi

até o céu claro;

São as melhores provas de minhas proezas

Pois todos os homens podem ver-las.

Entretanto, que tu fazias, Hárbard?”

 

Hárbard falou:

 

“Muitos amores tive com feiticeiras,

e eu as tirei de seus maridos;

Um Troll feroz eu acredito que foi Hlébard,

Deu-me o cajado mágico

E arrebatei-lhe a razão.”

 

Thor falou:

 

“Ao que me parece, um mau prêmio lhe deste por um bom presente.”

 

Hárbard falou:

 

“Tinha ele o carvalho que de outros tirou;

Cada um que se cuide de si,

Entretanto, que tu fazias, Thor?”

 

Thor falou:

 

“Eu estava para o leste, combatendo gigantes,

E pérfidas donzelas quando ia às montanhas;

Muitos filhos teriam os Trolls se todos vivessem,

Nenhum homem poderia viver em Midgard.

Entretanto, que tu fazias, Hárbard?”

 

Hárbard falou:

 

“Eu estive em Valland livrando combates,

incitando a lutar, nunca a fazer a paz;

A Odin vão os nobres guerreiros caídos em combate,

E a Thor somente os servos.”

 

Thor falou:

 

“Então uma divisão injusta das pessoas farias ante os Aesir

se tivesses poder para fazer-lo.”

 

Hárbard disse:

 

“Thor é muito forte, mas não é valente;

Por medo e covardia escondia-se na luva,

E não parecia Thor.

Não teve honra, cheio de medo

De investigar nem enfrentar, por Fjalar te observar.”

 

Thor falou:

 

“Hárbard maricas! enviar-te-ia à Helvete

Se pudesse cruzar as águas.”

 

Hárbard falou:

 

“Porque cruzar o canal se não temos um júri?

Entretanto, que tu fazias, Thor?”

 

Thor falou:

 

“Eu estava para o leste, defendendo rios,

quando me atacaram os filhos de Svárang.

Arremessaram pedras: de poucos lhes serviu

Pois em seguida rogaram-me pedindo a paz.

Entretanto, que tu fazias, Hárbard?”

 

Hárbard falou:

 

“Eu estive para o leste, dormi com uma rapariga,

branca como o linho, nós jogamos e tivemos encontros secretos:

Gozei com a áurea donzela, a rapariga amava o prazer.”

 

Thor falou:

 

“Então, bom fortúnio com mulheres tivestes.”

 

“Da tua ajuda tinha precisado, Thor,

Para a vigília com a branca como linho.”

 

Thor falou:

 

“Bem teria ajudado-te se ali eu estivesse.”

 

Hárbard falou:

 

“E ti teria confiado, se não fosses tão falso.”

 

Thor falou:

 

“Eu não mordo as iscas como um velho carregador na primavera.”

 

Hárbard falou:

 

“Entretanto, que tu fazias, Thor?”

 

Thor falou:

 

“Donzelas guerreiras combati em Hlésey,

Tinham feito o pior: dizimaram todo um povo.”

 

Hárbard falou:

 

“Foi grande covardia, Thor, lutar contra mulheres.”

 

Thor falou:

 

“Essas era mais lobas do que mulheres,

destroçaram meu barco que havia encalhado,

assustaram-me com um porrete,colocaram Thjálfi para fugir.

Entretanto, que tu fazias, Hárbard?”

 

Hárbard falou:

 

“Eu estava com o exército que veio aqui;

as bandeiras erguidas, lanças machadas de sangue.”

 

Thor falou:

 

“Assim, diz que fostes tu que trouxeste-nos a discórdia?”

 

Hárbard falou:

 

“Ofereço-te em compensação um bom bracelete,

como fariam os juízes querendo-nos reconciliar.”

 

Thor falou:

 

“Aonde aprendeste tais palavras mordazes?

Nunca tinha as ouvido com tamanho sarcasmo.”

 

Hárbard falou:

 

“As aprendi com os homens antigos,

que agora vivem nos bosques da terra.”

 

Thor falou:

 

“Bom nome dás aos túmulos mortuários,

ao chamá-los de bosques da terra.”

 

Hárbard falou:

 

“Assim eu também acredito.”

 

Thor falou:

 

“Esse escárnio te resultará mal

caso decido-me por atravessar as ondas;

mais forte que um lobo gritará, asseguro,

se golpeio-te com meu martelo.”

 

Hárbard disse:

 

“Sif possui um amante, vá a tua casa procurá-lo:

poderás provar teu valor com uma coisa mais impressionante.”

 

Thor falou:

 

“Dá gosto teu linguajar, dizes o que pode doer-me mais;

É um covarde, e creio que mente.”

 

Hárbard falou:

 

“Acredito que digo a verdade, se não tivesse atrasado tua viagem

teria já chegado mais distante, Thor, se ainda tivesse posto outra cara.”

 

Thor falou:

 

“Hárbard, maricas! Tu tens-me atrasado!”

 

Hárbard falou:

 

“Do Ásathor nunca pensei que poderia

conter um barqueiro em sua viagem.”

 

Thor falou:

 

“Te darei um bom conselho: traz aqui tua barca,

deixamos de ameaças, acodes o pai de Mágni.”

 

Hárbard falou:

 

“Atravessa o canal! Se nega-te o próximo passo.”

 

Thor falou:

 

“Pois me mostra o caminho se não queres me atravessar ao mar.”

 

Hárbard falou:

 

“Fácil é se negar: longe têm de viajar.

Uma hora no campo, outro campo atravessa,

Logo haverá um caminho à esquerda, até chegar à Verland,

Lá encontrará Fjörgyn a seu filho Thor

E lhe indicará os caminhos confiáveis até as terras de Odin.”

 

Thor falou:

 

“Rápido será para achá-las, já que só com atalhos responde-me;

pagarás por negar-me a viagem, se nos encontrarmos novamente.”

 

Hárbard falou:

 

“Vai-te já e as pestes que te carreguem!”

 

 

Obs.: Tradução e adaptação para o português por Vagner Cruz. Fonte nos Poemas Éddicos, a Hárbardsjód. Meus agradecimentos sinceros ao grupo O Troth e ao grupo do Antigo Caminho Gótico pelas referências e auxílio nas revisões. O poema continua passível de crítica e ou quaisqueres correções futuras. Este material poderá ser divulgado e repassado, total ou parcialmente, desde que citada a fonte. Que nossos trabalhos no reconstrutivismo do odinismo sirva de auxílio e inspiração para muitos, possibilitando a continuidade dos esforços.

 

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Cadu Garcia